Crônicas
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Índice das Crônicas: 

Prosperidade

À espera do 921

Deixo-vos a paz

Documentário sobre Tubarões

Osmares, Armandos e Guarás

Fique em Paz

 

 

 

 

Prosperidade

 (Zazo)

 

            Tivera uma vida insossa como crente. Criado em família evangélica, desde pequeno, tudo o que vira tinham sido demonstrações de um cristianismo fajuto, sem vida e sem sabor. Quase deixara a igreja, por absoluta falta de confirmação entre o que via nas reuniões e a prática de vida de muita gente, incluindo a sua própria. Afligiam-no ainda os efeitos de uma crise de identidade, aliada a uma interminável falta de grana. Esta última, então, completava o cenário desesperador.

            Foi então que surgiram ventos renovadores. Era o fim dos anos 80, e as igrejas evangélicas eram varridas por novas idéias e líderes que surgiam. Em Brasília, também era assim. Por conta desses novos ventos, aceitou o convite de um pentecostal e foi a um congresso no ginásio Nílson Nélson. E lá aconteceu o primeiro milagre: a mulher, que tinha um desvio na coluna havia anos, foi curada pela oração de um dos obreiros. Isso depois de uma pregação inflamada sobre cura, onde o máximo acontecera: Ele vira, com seus próprios olhos, o impossível.

            Começou a aprender que tudo então seria possível, desde que houvesse fé. E, de fato, as coisas começaram a acontecer. Num curto período, não tinha mais sinusite. As crianças não pegavam mais gripe, nem tinham dor de cabeça, enfim, as enfermidades desapareciam. Conhecia então Jeovah Rafah, o Deus que cura.

            Em função disso, decorou algumas passagens bíblicas que tocavam no assunto. Ouviu alguns estudos em fitas gravadas, anotou algumas informações e mudou o discurso. Agora era um vencedor! E a vida de crente, até então vazia, começava a se tornar um negócio interessante. No entanto, corria o risco de cair na monotonia. Precisava de outras descobertas.

            E elas vinham, pois os ventos continuavam soprando. Numa de suas andanças, ouviu uma palavra sobre vida financeira: “Somos filhos do Rei”, dizia o pregador, “um Rei que é também o dono do ouro e da prata!”.  As palavras vinham com força e tinham tudo a ver com ele, vítima quase fatal do naufragado Plano Cruzado, que o deixara cheio de dívidas e dúvidas. Oraram por ele, pra que houvesse um milagre financeiro.

            E o milagre veio! Saiu das dívidas, aprumou-se. Logo depois, deu uma melhorada na casa, comprou novos móveis, consertou eletrodomésticos estragados, adquiriu outros. O Deus da prosperidade estava em cena. Os filhos já andavam mais arrumadinhos, logo surgiu o carro (e tinha de ser novo, de luxo – afinal, somos filhos do Rei, ora essa!). Não se pode negar que já orava – ou pelo menos tinha aprendido um palavreado novo, como “tá amarrado”, “eu declaro”, “tá ligado”, “não aceito”, tudo com ênfase nas sílabas tônicas das paroxítonas.

            Vivia em função disso: orava por um carro melhor, por um salário melhor, por uma casa melhor, por uma posição melhor no trabalho... enfim, a prosperidade financeira era um sinal evidente da presença de Deus. E como as respostas sempre viessem, a vida passou a se resumir nisso: prosperidade financeira e saúde física. Não precisava de mais nada. Conhecia as bênçãos de Deus. Pra que conhecer o Deus das bênçãos?

 

Volta

 

 

 

À Espera do 921

(Zazo)

           

 

Deviam ser umas dez da noite mais uns quebrados. Nos subúrbios do Rio de Janeiro, desde tempos anteriores ao racionamento de energia, as noites costumam ser iluminadas apenas nas avenidas. Mas os ônibus que por ali circulam cortam as vielas, as afluentes, nem sempre tão iluminadas. As paradas se vêem acumuladas de gente, em especial após o primeiro tempo de um jogo do brasileirão transmitido pela TV, ou depois de um culto evangélico de meio de semana, ou ainda ao final de uma aula de  cursinho preparatório para concurso das forças armadas. Devia ser quarta ou quinta-feira, e o horário, com certeza, seria já aquele em que não se recomendaria andar por aí, em qualquer parte da cidade.

            Em tais circunstâncias, Miguel se dirigia a uma dessas suburbanas paradas de ônibus. Acabava de participar de um culto em sua igreja, uma daquelas reuniões minguadas que não contam com a participação de muitos. Provavelmente pegaria o 921, aquele que faz o percurso entre Bangu e Parada de Lucas, visto que estava em Realengo e saltaria em Irajá. O 921, por não ir até o centro da cidade, custaria menos e deveria passar por ali dentro de uns três minutos.

Antes, porém, que isso acontecesse, surge o inesperado: um carro pára, com quatro sujeitos mal encarados, todos armados. O que deveria ser o chefe deles anuncia o que está para acontecer, com a truculência própria de cada bandido. As vítimas, algo em torno de umas seis pessoas, apenas esperavam a famosa frase do tipo “isto é um assalto”. Mas a fala do bandido veio diferente. Disse ele:

- Todo mundo que não for crente pode sumir daqui. Eu só quero os crente! (a discordância nominal  os crente”  foi para reproduzir exatamente como foi dito).

 

Fugiu todo mundo, e se alguém ali houvesse que fosse crente, evangélico ou “irmão” (ou como se queira chamar) deve ter pensado estar diante de um “livramento” de Deus, e deu no pé. Fugiram todos. Todos mesmo? Não, nem todos. Ficou o Miguel.

            O suposto líder dos bandidos queria ter certeza de que Miguel entendera o que havia sido dito. Afinal, nosso amigo era o único que não aproveitara a oportunidade de ouro de fugir das mãos daquela gente perigosa. Por incrível que pareça, Miguel entendera bem. Parecia assustado, mas havia entendido direitinho o que estava acontecendo. Os quatro elementos entraram no carro, colocaram-no no banco de trás, entre dois armados que nada diziam. Cobriram sua cabeça com um capuz estilo ku kluz kan, só que sem a abertura para os olhos.

A partir daí, Fez-se silêncio durante 27 minutos exatos. Miguel apenas sentia as curvas e alguns quebra-molas. Seu pensamento fervilhava. Lembrava-se da conversão, do dia em que – havia dois anos – entrara pela primeira vez numa igreja sem entender direito o que estava acontecendo, mas aos poucos percebendo que precisava desesperadamente de Deus. Tinha então 21 anos. Nesses dois anos havia aprendido tanto sobre o Pai. Não apenas sobre Ele, mas com Ele. A vida era outra agora. Quanto mais conhecia Jesus, mais desejava tê-lo por perto, aquela coisa que algumas pessoas da igreja chamavam de “comunhão com Deus”. Sua maneira de relacionar-se com as pessoas também vinha mudando. Perdoara o pai, o que em si já daria uma história à parte, havia liberado também o perdão a outros e sentido a necessidade de ser perdoado por pessoas a quem prejudicara no passado. O amor por Deus e a vontade de obedecê-lo só faziam aumentar. E no andar das coisas, fizera um compromisso de fidelidade: jamais voltaria atrás, jamais negaria sua fé em Cristo.

Talvez exatamente por isso estava sendo seqüestrado.  

Poderia ter fugido. Afinal, tivera a chance de fazê-lo. Até que ponto teria sido pecado fugir? Em meio a tantos pensamentos, forçoso era reconhecer que não se sentia exatamente aquele tipo de “herói da fé”, do qual tanto ouvia falar por aí. Lembrava-se de notícias a respeito da igreja perseguida no mundo islâmico, de gente que morria sem mais nem menos, de forma brutal, por aqui mesmo, em países sul-americanos. Afinal, o que estava acontecendo? Não estava sendo raptado pelo Sendero Luminoso  (ou estava?). O que iriam querer essas pessoas? Seriam traficantes de drogas? Seriam jagunços de uma grande organização criminosa? As perguntas só faziam crescer a tensão. Resolveu fazer a coisa certa. Orar em pensamento.

Ninguém dizia uma palavra. Os minutos pareciam transformar-se em horas. Miguel perdeu a noção do tempo. De repente, o carro parou. Saíram os quatro, sendo que os dois de trás conduziam nosso amigo, ainda vendado. Andaram uns dez metros, depois desceram escadas. Ao que parecia, haviam adentrado a uma favela, daquelas que hoje servem de ponto de boca do fumo, parte de um esquema maior do narcotráfico. Desceram escadas. Chegaram a um quarto. Nessas alturas, tiraram o capuz.

O contato com a luz fez os olhos de Miguel reagirem à claridade. À sua frente, um sujeito com cara de poucos amigos apresentou-se como o chefão daquele “ponto”. Disse também que estava “a fim de matar um crente” naquele dia. Deu a Miguel a chance de voltar atrás  quanto ao fato de ser cristão.

-          Meu camarada, você tem cinco minutos pra mudar de idéia. Se você não voltar atrás, vai morrer aqui mesmo.

 

Ele tinha escolha! Mais uma vez, estava diante da possibilidade de voltar nos seus conceitos. Tudo ficaria “por isso mesmo”, afinal, tudo é tão relativo... Bastava dizer que “não era bem assim” e estaria livre. Quando se está diante de uma arma apontada para a cabeça, tudo é perdoável. Qualquer um entenderia, até mesmo Deus... Não seria uma segunda chance, um novo livramento? Tudo poderia terminar por aí mesmo. Bastava uma palavra. “Você é crente ou não é?” A resposta seria um curto, seco, frio e monossilábico “não”, sem mais delongas, como se diria em determinada denominação evangélica.

Os cinco minutos passaram na mente de Miguel como passou a véspera da crucificação. Quisera Deus o livrasse dessa hora – mas quem sabe se exatamente para essa hora ele tivesse sido preparado, nesses dois anos?

-          E aí, doutor? Já decidiu? Tu é crente ou não é? – soou a voz num tom de escárnio que saltava aos ouvidos.

 

-          Sim, eu sou crente. – Foi a resposta.

 

Tudo o que Miguel esperava agora era o tiro, a surra, a tortura, qualquer ato de maldade. Mas o chefão apenas o conduziu a uma outra sala, sentou-se diante de uma mesa, pediu a Miguel que se sentasse à sua frente, colocou as mãos no queixo e chorou.

-          Fui criado no evangelho – disse ele. – Eu conheço sobre o poder de Deus. Tudo o que eu precisava era que um crente de verdade viesse aqui. Minha mulher está com umas esquisitices. Isso não é normal. Só pode ser coisa do demônio. Dava pra você orar por ela...?

    

Volta

 

 

 

Deixo-vos a paz...

 

(Zazo)

 

            Ele vinha feliz e contente com seu boné “zerado”. Não era um boné como os outros. Era de um time de basquetebol americano, NBA, um dos mais respeitados entre os garotos de sua idade. Tinha, então, doze anos. E todo garoto de doze anos gostava de boné. Quem não usava, de um jeito ou de outro, parecia admirar aqueles que o faziam. Um boné de qualquer time da NBA ficaria em torno de seus dezessete reais, num tempo em que o real valia quase três vezes mais do que vale hoje. Conseguira por sete! O avô lhe dera cinco, os outros dois surgiram pela obra e graça de momentos felizes. De fato, o preço fora seis e noventa, mas onde se contam dez centavos de troco nessas alturas?

            Merecia uma espécie de comemoração. Um boné desses, lindo, novinho, cheio de moral, nesse preço, era – no mínimo – uma façanha! Ainda mais se pensasse no quanto era difícil se obter dinheiro por aqueles dias de governo FHC.

            De repente, o inesperado, o absurdo acontece: num momento em que não havia quem o defendesse, em sua própria quadra, passam dois sujeitos perversos, desocupados e – como não poderia deixar de ser – muito mais velhos, na faixa de seus vinte anos.

            - Me dá esse boné, garoto!

            A voz e a frase, ambas tão duras, penetram a alma, e o menino sente o corpo gelar. Sem ação ou reação, vê-se, numa fração de momento, humilhado, invadido, agredido fisicamente e – o que é pior – sem o boné. É então que se percebe criança, fraco, indefeso, no lugar do adolescente que até então julgava ser. As lágrimas vêm com força: irrompem incontrolavelmente. Surge um mal-estar, seguido de um terrível sentimento de incapacidade,  fraqueza, raiva, culpa, injustiça, vingança, tudo ao mesmo tempo... a dor moral de se ver humilhado dói mais do que a dor física. A perda da autoconfiança aflige mais que a do boné. Não sabe explicar o que sente. Tudo faz um turbilhão de pensamentos.

            Cenas assim marcam a história da gente. Quem, quando criança, não se viu algum dia numa situação parecida de alguma forma como essa? Um momento em que estivesse assustado, fraco, indefeso, humilhado...? Quem não foi algum dia vítima da violência ou do abuso de força? Qual de nós não leva para a vida adulta experiências de medo ou culpa trazidas da infância. Elas ficam, não importa quantos anos de idade você tenha.

            Mas, para a infelicidade daquele que veio para roubar, matar e destruir, o garoto era um filho de Deus, alguém que vivia debaixo da graça do Pai. O boné se fora, mas a cabeça estava lá e, dentro dela, a mente que se lembraria da Palavra “Posso todas as coisas nAquele que me fortalece.” ou ainda “Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus.” Mais tarde saberia por que o Senhor não o livrara daquela momentânea tribulação. Dentro dele, havia algo que o ladrão não conseguira roubar: a paz.

   

Volta

 

 

 

Documentário sobre Tubarões

(Zazo)

 

            Enfim só. Absolutamente só. A esposa e as crianças haviam pegado a estrada com o irmão dela, rumo a Goiânia, onde veriam alguns parentes. Era sexta-feira, eles só retornariam na terça. Embora fossem um casal feliz, ele sentia que havia algo de legítimo em querer estar só, até porque não seria por tanto tempo. Momento bom para esfriar a cabeça, ouvir alguns CDs que só a ele interessavam, ler um livro, ter seu próprio momento com Deus e consigo mesmo. Afinal, todo mundo precisa disso, qual seria o problema? Na sexta-feira, então tudo tendia às facilidades. O chefe o dispensara mais cedo meia hora, enfrentara o trânsito terrível que às sextas-feiras parece ainda pior e... enfim, só.

            Daí teve uma idéia: alugar um filme. Quem sabe, um filme de suspense ou policial ou terror, um filme que normalmente não alugaria quando Vera – esse era o nome da esposa – estivesse junto. O nome dele: Clemílson. Mas voltemos a ela, que tinha preferência por drama, romance, filmes de mulher. O instinto masculino de nosso personagem pedia ação, suspense, emoções fortes. Ainda na euforia de uma lua de mel consigo mesmo na base do “eu me amo”, dirigiu-se à locadora, que ficava no comércio da quadra. Um filme alugado, uma pizza entregue em casa, um refri de dois litros, tudo ótimo para um programa solitário. Aí estava um sujeito que se curtia, que mal existe nisso?

            Enquanto caminhava, um pensamento em forma de fagulha tocou algum lugar de seu in, ou semi, ou quase consciente. Refutou de imediato: “tá amarrado!” Mas a coisa insistia em algum lugar da cabeça e parecia querer desenvolver, tomar forma e, quando menos esperava, Clemílson se viu duas quadras adiante, em outra locadora que não a de costume, prestes a tornar realidade aquilo que, com tanta veemência refutara minutos antes. A outra locadora manteria o anonimato. Havia ficado sócio, mas nem ele nem Vera haviam uma só vez na vida ido lá alugar filme. Nada melhor para o momento. E o que parecia tão difícil, ou mesmo impossível, estava pra acontecer: alugaria uma fita pornô.

            Lá estava Clemílson, no subterrâneo da locadora de vídeo, seção destinada aos filmes que – por discernimento do dono da loja – não deveriam ficar à vista de crianças. As capas das fitas sugeriam as mais diversas situações, algumas das quais possivelmente fariam corar Jece Valadão ainda nos tempos de plena atividade cinematográfica. O instinto o induzia a dar o passo, ao mesmo tempo em que uma voz pequena, interior, fragilizada, tentava dissuadi-lo. O que Vera pensaria se voltasse e o encontrasse assistindo a uma fita dessas? Como ele mesmo se sentiria depois? Como se sentiria com Deus, e como Deus se sentiria a seu respeito? Mas, por outro lado, que mal haveria nisso? Também, a Vera vinha andando tão ocupada, não lhe dava mais a atenção de que ele tanto precisava. Essa semana mesmo, antes de viajar, nem deu prioridade pra uma noite de amor. Só pensava nas coisas sérias da vida, não solicitava mais seus “serviços” e, quando ele mesmo tinha um desejo, lá estava ela abrindo a boca de sono, tirando dele até a graça de propor qualquer coisa... Viravam-se um pra um lado, outro pro outro, ele amargando uma ira calada, sufocada, a autonegação de, mais uma vez, ter de esperar por outro dia, pra talvez, quem sabe... E esse dia, afinal, não chegara antes de ela viajar, totalmente distraída. Por isso mesmo, o apóstolo Paulo afirmava, com tanta ênfase, que um não deve negar ao outro o que lhe é devido. Vera deveria ler mais os ensinamentos de Paulo... Ela que era uma mulher tão espiritual, deveria voltar um pouquinho, pôr os pés na terra e ver o mundo à sua volta.

            Clemílson suava. Aliás, fazia calor, mas o seu suor tinha o tempero da angústia misturada com uma excitação perversa que lhe corroía o corpo. Pegou a fita. Levou até o rapaz do balcão. O balcão era lá em cima, e o rapaz o atendeu com excessiva naturalidade, se é que isso existe.

-          Sr. Clemílson, o senhor não costuma alugar por aqui, costuma?

-          Não muito – respondeu Clemílson com voz falha.

-          Ah... deixe-me confirmar. O endereço ainda é...

-          O mesmo endereço.

-          Telefone...

-          O mesmo – Clemílson apressou-se em dizer o número.

Felizmente, a capa da fita não trazia a escandalosa imagem que Clemílson vira lá em baixo, e sim um impessoal papel branco com o nome da locadora, igual pra todo mundo. O nome do filme vinha em letras pequenas, quase não dava pra ler. O rapaz do balcão, não podendo registrar no computador e atender ao mesmo tempo, gritou para um outro:

Nesse exato instante, o inesperado aconteceu: entrava na locadora a família do irmão Rivaldo, uma família atuante na igreja. A esposa de Rivaldo, sabedora da viagem de Vera, antecipou-se:

-          E aí, irmão? Como é que tá se virando sem a esposinha...?

-          É, a gente se vira, né? – responde Clemílson, tentando disfarçar a sengracez

e o suor que, a esta altura lhe fazia brilhar a testa.

            Os filhos do irmão Rivaldo corriam de um lado pra outro da locadora, insaciáveis diante da possibilidade de mexer nas coisas, derrubar, fazer arte, o que reservava ao próprio pai a função de domá-los:

-          Menino, não mexe aí! Se vocês mexerem nessa prateleira,  vão  ver     uma

coisa!

Os meninos mexiam, mas não viam coisa nenhuma além da ameaça do pai,   que

agora se virava para Clemílson sem outro interesse a não ser o de perguntar o óbvio:

-          Vai ver um filminho...?                   

-          É... – responde Clemílson, adaptando-se à situação e adquirindo   meios   de

defesa.

            O rapaz que ia embalar a fita retornava. A esposa do irmão Rivaldo chega ao que Clemílson mais temia, a pergunta que revela a inequívoca curiosidade da mulher:

            -    Poderia saber qual filme? Ou é segredo...? – ela pergunta com um tom de voz meio insinuante, meio cantado, meio na brincadeira, meio sério e, para Clemílson, meio desconcertante.

            -   Que isso?! Que segredo o quê! É só um documentário sobre tubarões. Vera e as crianças não ligam muito pra esse tipo de fita. – concluiu com um suspiro de alívio pela capacidade inesperada de improvisar.

            A mulher de Rivaldo ia dizer outra coisa, mas o alarme do carro deles disparou lá fora. Saiu Rivaldo, a esposa e os filhos, estabanados, e não voltaram mais. Clemílson, quase fez uma oração de agradecimento pelo “livramento” que experimentava, quando se lembrou do que estava realmente fazendo. Foi quando notou que o tal Ricardo, esse que ficara de trocar a embalagem da fita, havia sumido outra vez e agora voltava. Deu a fita com a capa da locadora ao rapaz do balcão, que entregou a Clemílson.

            -  Prontinho – disse o rapaz do balcão. Devolução domingo até meia-noite. Paga na volta?

            -   Pago agora – preferiu Clemílson, já pensando em evitar novo embaraço na hora da devolução. E pagou.

            -   Prontinho – repetiu o rapaz do balcão. E Clemílson pensou consigo mesmo que esta devia ser a palavra mais usada pelos rapazes de balcão de locadora de vídeo em todo o país.

Saiu com sua fita protegida por um saco plástico. Chegou em casa. Nem tomou banho. Tratou de ligar o videocassete e inserir logo a fita. Esqueceu-se da pizza. O coração ainda batia forte, mais pela excitação do que estava para apreciar do que pela consciência. Estimulado por suas próprias razões, ia em frente.

A fita entrou no vídeo e começou a girar. Primeiro aquela exibição de diversas tonalidades de cores para ajuste. Depois, um aviso proibindo reprodução, de acordo com a lei nº tal, aquelas coisas de sempre. Ansioso, pegou o controle para correr pra frente. Apertou a tecla FF e, para surpresa sua, o vídeo respondia com STOP. Vinha a imagem do canal de televisão, que exibia a fisionomia de Bóris Casoy cumprindo seu papel e dizendo que isso ou aquilo era uma vergonha. Deu PLAY, teclou FF outra vez. De novo a resposta do vídeo foi STOP. “Que droga”, pensou, já imaginando um telefonema para a locadora. Mas, calma! Se ejetasse a fita, poderia ver o que era. Apertou a tecla EJECT. E a fita não ejetou. Apertou outra vez, e nada! Tentou dar PLAY de novo. Agora também não dava o PLAY. Não corria pra frente nem pra trás, não ejetava. “Meu Deus!”,  pensou. Tenho que tirar essa fita daí!” Tentou várias vezes e nada. O vídeo agia como se estivesse desligado na tomada. Simplesmente não respondia. Ligou pra loja, só dava ocupado. Pensou em desmontar o vídeo. Foi até o carro, pegou a caixa de ferramentas, abriu o aparelho. Mas não conseguiu tirar a fita. Estava presa lá dentro. Lembrou-se de um irmão da igreja que tinha uma loja que conserta videocassetes, mas logo lembrou-se também de qual fita estava dentro do seu. Não, não poderia ligar pra ele. “E agora, meu Deus?!”   E até o nome de Deus soava inconveniente, embora tantas vezes o tivesse usado como mera interjeição, a palavra não lhe parecia apropriada para o momento.

            Tocou o telefone. Era o líder dos jovens dizendo que haveria uma festa surpresa para a Vanessa, pelo aniversário dela. Alguém entre os jovens havia se lembrado dele, já que estava “solteiro”. Clemílson não sabia o que responder. Ainda estava agoniado com a situação, disse que ligaria em seguida dizendo se iria ou não, que talvez não pudesse em face de trabalho que havia levado pra casa.

            Entretanto, depois de muitas tentativas e de se convencer da absoluta impossibilidade de dividir essa situação angustiante com quem quer que fosse, ligou pro líder dos jovens e perguntou:

-          Onde eu encontro vocês?

Dentro de vinte minutos via-se misturado com jovens e adolescentes num  salão de festas de um bloco no Guará II, as luzes apagadas, alguns rindo baixinho, outros pedindo silêncio, até que a quantidade de gente fazendo psiu pra que os outros se calassem fazia por exigir um psiu mais volumoso que os demais, o que perdurou até que a aniversariante chegasse e a festinha surpresa virasse apenas festinha.

 O aniversário serviu para distrair Clemílson, que a princípio tentava disfarçar a tensão em que se encontrava, mas depois descontraiu. Na volta pra casa, porém, a agonia voltou. O que fazer? Jogar fora o vídeo? Mas aí que história iria contar a respeito do aparelho? E o prejuízo? Um videocassete não é baratinho! Voltaria pra casa e continuaria tentando! Empurraria a fita pra frente, com uma chave de fenda, quem sabe cedesse... não, já havia feito isso. O dia seguinte seria sábado, as lojas de assistência técnica funcionariam até o meio-dia. Poderia levar pra um desses técnicos, quem sabe ele não conseguiria em dois tempos resolver o problema. Pronto, faria isso!

Chegando em casa, tentou dormir, mas não conseguia. Orar antes de dormir, coisa que sempre fazia com Vera, tornara-se uma ironia agora. Como falar com Deus numa situação dessas? Virava de um lado pro outro, numa sensação incômoda. Lembrou-se da própria adolescência, quando ouvira um líder comentar sobre uma passagem que alertava sobre a volta do Filho do Homem. Jesus voltaria num instante em que ninguém estaria esperando... Misericórdia, se Ele voltasse agora, e essa fita dentro do vídeo, e essa situação não resolvida... tá amarrado! O retorno de Cristo tá amarrado?! Meu Deus, que loucura!

Amanheceu, mas demorou a dar nove horas.

Clemílson levou o vídeo à loja. Novamente teve de pensar no anonimato. Como morasse no Cruzeiro, resolveu levar a um técnico na Asa Norte, só pra garantir. O técnico foi irredutível, disse que não poderia tirar a fita na mesma hora, que o caso não era tão simples assim e que se ele quisesse que levasse pra outra assistência, mas que ninguém tiraria a fita de imediato. Por fim garantiu que na segunda-feira tudo estaria resolvido. Clemílson tentou de todas as formas assegurar que o conserto não passaria da segunda-feira. Na volta, passou na locadora e explicou o que estava acontecendo. Teve de conversar com o gerente, o que aconteceu gradativamente: primeiro o Ricardo, depois o rapaz do balcão, depois a irmã do gerente, que estava lá, por último, o próprio. Que suplício!

Agora só restava aguardar.

Passou o resto do dia.

Chegou o domingo e com ele as atividades da igreja, aquelas que tantas vezes envolvem pessoas como Clemílson. Ele trabalhava na recepção e estava escalado para o culto da noite. Seu posto era justamente entre o salão de reuniões e o hall de entrada, de modo que servia de intercessão entre o lado de dentro e o pessoal que vinha chegando. Estava responsável por ver lugares vazios e acomodar pessoas, ficar de olho e dar um toque na turminha de adolescentes que não pára de conversar e não está nem aí pro culto – esses que toda igreja tem – e facilitar a vida das mães, gestantes, e aqueles jovens casais que ficam nos últimos bancos com mamadeira, chuquinha e carrinhos de bebê.

Mas chega o momento em que Deus fala por meio do pastor. A mensagem era sobre o prato de lentilhas pelo qual Esaú trocou sua primogenitura com Jacó. Dizia o pastor que havia muita gente trocando sua condição em Deus por um prato de lentilhas e que tais pessoas deveriam reavaliar sua vida. Aquilo o incomodava. Mas a essa altura era necessário fingir.

Em casa, à noite, Vera ligou de Goiânia. Dizia estar morrendo de saudades, as crianças também, sem o papai ali não tinha graça. Vera estava bem, assistira ao culto na igreja freqüentada pelos irmãos dela, em Goiânia. Mas terminou o telefonema dizendo que amava o marido muito e que estava sentindo sua falta. Que quando voltasse pra casa, ela lhe faria uma surpresa. Desligaram o telefone. E pela primeira vez, desde que a fita havia travado dentro do vídeo, Clemílson chorou.

A segunda-feira traz o retorno à movimentação. O Eixão, tanto do lado norte quanto sul, é um aglomerado de carros que se afunilam no sentido Eixo Monumental-Esplanada. Clemílson faz parte dessa massa de motoristas. No caminho, ouve a CBN. Gilberto Dimestein fala com Eródoto Barbeiro sobre as estatísticas de infidelidade conjugal na América do Norte. Eródoto compara com os índices no Brasil. Dimestein começa a falar sobre uma nova pesquisa, aquela que não trata de casos concretos, mas de intenções, o que ele chama de “infidelidade potencial”, e diz que, segundo a pesquisa, tantos por cento dos americanos nunca experimentaram concretamente a traição ao cônjuge, mas teriam feito isso nesta ou naquela condição ou época. Clemílson muda de estação, coloca na 92, que transmite o programa da Presbiteriana de Brasília, justo na hora da mensagem. Ele desliga, com medo de que as palavras do pastor venham atingi-lo de cheio, como acontecera na noite anterior.

Após o expediente, a surpresa: Vera resolvera voltar mais cedo de sua viagem. As crianças ficaram com o irmão dela e só voltariam na quarta-feira, de manhã. Assim os dois poderiam ter um tempo só deles, sem os meninos. Investiriam no relacionamento, poderiam se amar como há muito não faziam devido a um monte de pressões. Vera achou que o marido adoraria a idéia, até porque tinha sido negligente com ele e havia se lembrado daquela passagem que os maridos adoram que Paulo recomenda, etc e tal...

Clemílson, não esperando por essa, teve de apelar para sua capacidade de fingir. Fingiu alegria pela surpresa, fingiu prazer na cama, fingiu felicidade, fingiu gratidão e fingiu dormir. Pra complicar, a assistência técnica não conseguira consertar o vídeo a tempo. O técnico que ficara de arrumar ficou doente, e o outro já tinha serviços na frente pra entregar.

No dia seguinte, antes de ir pro serviço, o telefone tocou. Vera atendeu e ficou sem entender.

-          Amor, é pra você. O rapaz disse que é da locadora...

Clemílson gelou. Era o mesmo rapaz do balcão querendo saber se o problema já

havia sido resolvido. Clemílson queria falar baixo e agir com naturalidade ao mesmo tempo, missão quase impossível. Por fim gritou com o rapaz dizendo que ligaria pra ele mais tarde. Vera continuava sem entender.

            Já no serviço, tratou de ligar para a locadora e explicar que preferia falar do serviço a respeito desse assunto. Ligou também para a assistência técnica, mas teve outra surpresa: o técnico havia consertado o vídeo, tirado a fita de dentro dele e, como estivesse indo pra Asa Sul, resolvera – a título de cortesia – deixar o vídeo e a fita na casa de Clemílson, que quase morre ao ouvir a notícia.

-  Por que vocês resolveram levar??? – perguntou Clemílson visivelmente irritado.

-  Ué, pensamos que o senhor iria gostar. – respondeu o rapaz.  -  Inclusive liga-

mos antes, mas não conseguimos falar.

            Clemílson entrou em desespero. Ligou para a esposa. O vídeo já havia chegado, juntamente com a fita. Disse que estava em jejum e que não voltaria pra almoçar em casa, mas que gostaria de conversar com ela quando voltasse. Tinha algo muito sério pra dizer a ela.

            De fato, ele entrou em jejum a partir daquele instante. Buscou, do mais sincero de seu íntimo, o perdão de Deus. Sentia remorso, não podia chamar aquilo de arrependimento, mas precisava desesperadamente de solução. Questionou-se profundamente. Sabia o quanto era ruim só se entregar depois de pego, mas ainda assim tentava vislumbrar luz no fim do túnel. Perguntava a si mesmo se era salvo. Usou o horário de almoço para estar a sós. Foi até a Prainha, estacionou à margem do lago e, num lugar solitário, clamou pela misericórdia de Deus. Todos os fatos se passavam em sua mente como num filme: o momento em que ia alugar a fita, o desejo de ir além, a fita sendo travada no vídeo, o aniversário, a assistência técnica, a noite sem dormir no sábado, a palavra do pastor no domingo, a CBN e o retorno de Vera. Sentia-se terrivelmente mal.

            Após o expediente, abatido e com os olhos vermelhos, chegou em casa. Sabia que Deus o perdoara, mas conseguria o perdão de Vera? Conseguiria o perdão do próprio Clemílson?

            A mulher o recebeu com ternura. Abraçou-o, beijou-o carinhosamente.

            -  Ligaram da locadora – disse ela.

            Clemílson não respondeu. Ela continuou:

-          Já fui lá, devolvi a fita. Tive de pagar uma multa.

Ele continuava mudo. Ela voltou a falar:

-   Nunca pensei que você era interessado em documentários sobre tubarões. Pena que a fita travou no vídeo.

            Agora era Clemílson quem não entendia. “Meu Deus!”, pensou entre maravilhado e assustado. Teria Deus feito um milagre como prova de Seu perdão? Seria isto lançar seus pecados nas profundezas do mar? O que teria acontecido? Foi aí que, numa fração de segundo, voltou sua mente à locadora, na sexta-feira, quando a mulher de Rivaldo lhe perguntara que filme ele estava alugando. Ele respondera algo relacionado a documentário sobre tubarões. Teria sido por isso que o tal Ricardo voltara e demorara mais a trazer-lhe a fita. Teria ele ouvido e entendido que Clemílson desejava mesmo o tal documentário? Tudo indicava que sim, e a prova estava aí, diante dele! Arrepiava-se por dentro, diante do que acabava de constatar. Estava salvo!

            Foi quando Vera, cujo nome significa verdadeira, lembrou-se de algo que ele havia dito pelo telefone:

            -  Agora, bem, você disse que tinha algo muito sério a dizer. O que é?

 

Volta

 

 

 

Osmares, Armandos e Guarás

(Zazo)

           

            A igreja pentecostal ficava no lado de lá do Guará II,  perto do atual entroncamento do metrô, quando se vem do Guará I. Naquele tempo não havia o entroncamento, portanto quem viesse do Guará I virava à direita e fazia o retorno lá na frente, de onde se podia ver a Batista Filadélfia. Para quem não conhece o Distrito Federal, o Guará é uma cidade daqui, por sinal muito boa, fica a poucos quilômetros do Plano Piloto, isto é, a zona central da capital do Brasil. Divide-se em Guará I e II. A igreja tradicional da qual estamos falando reunia-se provisoriamente numa escola, no início do Guará I (considerando quem vem da Asa Sul), visto estar seu prédio (nave, como preferiam dizer) passando por reformas. Seu pastor presidente chamava-se Osmar. Aliás, nome muito parecido com o do pastor da outra, que atendia por Omar. Talvez aí esteja a origem do incidente que passamos a narrar.

            Estavam as duas igrejas para realizar uma série de conferências. Haveria um feriado na sexta-feira, e Omar havia conclamado sua membresia a não viajar. Por sugestão de um colega de Faculdade Teológica, estava convidando um pastor de Belo Horizonte, homem de Deus com um ministério de cura que poderia ser caracterizado como tremendo! Apenas por detalhe, na igreja à qual nos referimos, a pentecostal, a palavra “tremendonão era usada por qualquer motivo. Haveria de ser algo inimaginável!

Acontece que Osmar, o tradicional, também estava para realizar com sua igreja uma série de pregações que se estenderiam pelo mesmo período: de sexta a domingo. O pastor convidado de Osmar também vinha de Belo Horizonte. Chamava-se Armando - mesmo nome do convidado pentecostal.

            Chegou o dia. O vôo de Armando, esclareça-se aqui, o pentecostal, era da Vasp. Uma promoção daquelas que a irmãzinha da agência de viagens aproveitara. O Armando tradicional vinha pela Varig. Ambos chegariam ao aeroporto de Brasília por volta das quatro ou cinco da tarde, na sexta-feira. Iriam para a casa de alguém das respectivas igrejas hospedeiras, conheceriam seus anfitriões, tomariam banho, fariam lanche, orariam e... iriam para a primeira noite da série.

            Osmar, no rigor tradicional, chegou ao aeroporto exatamente às quatro da tarde. Como não conhecia Armando pessoalmente, trabalhava com as características que lhe haviam sido fornecidas. O pastor visitante era amigo de um amigo. E pela descrição deveria ser um sujeito magro e meio calvo que "zanzava" de um lugar para outro, como quem espera o anfitrião. Apenas parecia um pouco mais jovem do que o esperado, mas... estava com uma Bíblia na mão, tinha cara de crente, aliás, tinha cara até de pastor! Arriscou:

            - Perdão, eu vejo que o senhor tem uma Bíblia nas mãos... acaso o senhor é evangélico?

            - Sim - respondeu com presteza o interlocutor. - Sou pastor.

            - Seu nome?

            - Armando...

            - Oh, graças a Deus! Eu sou o pastor Osmar. Vim exatamente recepcioná-lo.

            - Oh... quanta honra. É... eu pensei que o irmão mandaria o diácono...

            - Não, não, amado! Vim eu mesmo. Muito prazer. Seja bem-vindo à nossa capital federal...

            - O prazer é todo meu - respondeu o pastor Armando.

            - Vamos, vamos. O carro está logo ali, no estacionamento. Deixe que eu levo isto... como foi a viagem?

            - Muito boa, graças a Deus. Eu gosto da Vasp.

            - Vasp...?

            E assim foram.

 

            O diácono José Abreu, ovelha do pastor Omar, passou um dia um tanto atabalhoado. Muita correria, muita coisa pra providenciar... a conta de luz da congregação em Planaltina ficara na mão dele; responsabilizara-se ainda pelas cópias da apostila do curso de casais - a xerox da igreja havia quebrado, e sobrara para ele a missão de ir a uma dessas copiadoras no Setor Comercial Sul, a fim de reproduzir cinqüenta cópias de um volume de dez páginas. Isso porque o rapaz que trabalhava no escritório da igreja arrumara uma gripe fortíssima e não pudera vir trabalhar. Pra completar, a esposa do pastor Omar torcera o tornozelo, o que levara o pastor a correr com ela para o HGO. Enfim, recaíra também sobre os ombros de José Abreu a responsabilidade de recepcionar o pastor Armando, de BH.

            O problema era que, com o acúmulo de responsabilidades, estava o José Abreu atrasado em relação à chegada do vôo da Vasp, que aconteceria por volta das quatro horas. Já eram quase cinco. Mas conseguiu sair do Setor Comercial, pegar o Eixão e seguir direto até o balão do aeroporto, antes de o engarrafamento começar. Chegou ao aeroporto às cinco horas, junto com um vôo da Varig procedente de Belo Horizonte. Opa... o nosso convidado vinha de lá. Quem sabe o vôo não estava atrasado... Era Vasp ou Varig...?

            Dentro de alguns minutos, os passageiros da Varig procedentes de BH tiravam suas bagagens. Pego de surpresa e não conhecendo o visitante, José Abreu havia tomado a iniciativa de escrever com pincel atômico o nome Armando precedido das letras pr, a fim de não haver dúvida.. Foi tiro e queda. Em pouco tempo, uma figura simpática e sorridente se aproximava dizendo:

            - Sou eu. Graça e paz.

            Seguiram-se quebras de protocolos, abraços, sorrisos, versículos bíblicos e piadinhas de crente. O vôo era da Varig. Varig...? Bom...! Vai ver era isso mesmo...

            E assim se fez.

 

            Armando sentia-se à vontade em pregar numa escola. Sua própria congregação havia usado instalações de colégios durante longos anos. Só agora alugara um salão um tanto amplo num bairro da periferia de BH. A reunião começou com um período de louvor que entremeava cânticos de Asaph Borba com hinos tradicionais. "Isso é bom", pensava, "faz tempos que não ouço um hino tradicional..." Realmente, aqui pra nós, algumas igrejas neo-pentecostais parecem ter perdido esse vínculo tão precioso da antologia musical cristã. Armando sentia-se bem com os hinos e com os cânticos.

            Chegou a hora da pregação. Havia orado, preparado uma palavra sobre cura e iniciou com a saudação de praxe:

            - Saúdo a santa e amada igreja com a paz do Senhor...

            Os poucos que responderam "amém" o fizeram num volume de voz tão baixo que não deu pra ouvir direito. Humm... causou estranheza a Armando.

 

            Enquanto isso, no outro lado do Guará, o pastor Omar iniciava a reunião com:

            - Saúdo a santa e amada igreja com a paz do Senhor...

            Seguiu-se um estrondoso "amém". Humm... causou estranheza a Armando.

 

            Mas seguiram-se também os cultos e, em cada um deles, ia ficando a impressão das igrejas, dos pastores anfitriões e dos pastores visitantes de que algo não estava batendo. Alguma coisa parecia inusitada, pra não dizer errada... Omar sentia que Armando era calmo demais. Já o Osmar pensava o contrário quanto ao “ seu” Armando. No início foi um choque para ambos. Frases como “o Espírito Santo de Deus está neste lugar” pareciam não produzir qualquer reação nos ouvintes de uma congregação. Por outro lado, o outro grupo interrompia com interjeições evangélicas o tempo todo, quase desconcentrando o preletor.

Porém, à medida que o tempo passava, era intrigante ver como Deus estava usando a vida de Armando, tanto de um lado quanto de outro. Havia cura interior no Guará II; havia cura física no Guará I. Em uma igreja, entendia-se a Palavra; em outra, o poder. Tudo na medida, conforme a necessidade. Tudo no jeito de Deus, que sempre escreve certo.

            Ninguém ousava dizer qualquer coisa. Talvez por medo de se gerar um constrangimento, talvez por timidez, talvez até por entender, pouco a pouco, que deveria ser assim. Mas uma coisa era certa: era fácil perceber, tanto numa parte quanto na outra, que o tal pastor Armando parecia diferente das descrições.

            Se isso acontecia de parte da igreja, não era diferente com relação aos pastores convidados. Porém, no passar dos três dias, uma mudança parecia estar ocorrendo nos dois Armandos. O tradicional já falava uns “aleluias” de vez em quando, e o fazia com o coração cheio de gratidão ao Senhor; ao mesmo tempo, o pentecostal começava a economizar jargões e já não parecia fazer as antigas exigências de um “amém” após declarações que nem chamariam essa palavra.

            Encerraram-se as pregações no domingo à noite. Haviam sido dias abençoados, embora cansativos. Os Armandos voltaram para Belo Horizonte, após calorosas despedidas. Viajaram no mesmo dia, cada um no seu vôo. Omar e Osmar continuam suas vidas e seus ministérios. O diácono José Abreu tirou um dia de folga na segunda-feira, para descansar. O tornozelo da esposa do pastor Omar ficou bem, após sete dias enfaixado. Os Armandos de BH nunca se conheceram, embora fique a possibilidade de novos “enganos” em outras cidades do país. Omar e Osmar, à semelhança de seus hóspedes, jamais se viram. Talvez um dia se encontrem aqui na terra, num congresso missionário ou numa livraria evangélica, ponto de encontro da crentaiada... a igreja tradicional deixou de se reunir na escola, quando seu prédio ficou consertado. Desde então, não se sabe se por coincidência, nunca mais usaram a expressão “nave” se referindo ao salão de cultos. A Faculdade Teológica continua funcionando na Asa Norte. E aqui termina mais um “causo”.

 

Ah, um detalhe: o entroncamento mudou a fisionomia da divisão entre o Guará I e o Guará II. Ninguém precisa agora virar à direita, nem fazer o retorno lá na frente, a não ser que queira ver o prédio da Batista Filadélfia, que continua no mesmo lugar, até os dias de hoje.

 

 

Volta

 

 

 

  Fique em paz 

(Zazo)

          

            Aconteceu na Baixada Fluminense. O cenário é a cidade de Belford Roxo. O personagem é um pastor humilde, sem diplomas, sem grande oratória e sem ostentação material, mas dotado do principal: unção do Senhor. O tempo já vai um pouco longe. Um belo dia esse homem de Deus recebe um convite para pregar no centro de Belford Roxo, em determinada igreja cuja denominação, por zelo, vamos ignorar. O convite partira do líder de mocidade. Tratava-se de uma ocasião festiva para os jovens da igreja e, no domingo, a programação seria fechada “com chave de ouro”, ocasião em que o nosso querido iria transmitir a mensagem que o Senhor ainda o entregaria. Aconteceria em três semanas.

            Sentindo-se honrado pelo convite, que lhe fora enviado em mãos, o pastor começou a pensar no que deveria pregar. Ele morava num subúrbio de sua cidade, numa região menosprezada e carente de recursos e facilidades. Pregar para uma igreja no Centro prometia ser o máximo em sua sofrida carreira de pastor. Passara a vida cuidando de ovelhas simples, gente do interior e sem cultura, com quem tanto se identificava. Andava de bicicleta por trilhas áridas e difíceis, no exercício do sacerdócio. Tantas vezes montara no lombo de um burro e atravessara rios, nos interiores do Estado, em tempos mais remotos, tudo isso pra fazer uma oração por um, explicar  o plano de salvação a outro, confirmar a fé de alguém ou fazer uma cerimônia fúnebre de alguém mais. Agora recebia um convite para pregar no encerramento da programação da mocidade de uma igreja do Centro!

            Atente o leitor para o fato de que não estamos falando do centro do Rio, e sim do centro da própria Belford Roxo; conquanto seja simples para o querido leitor, não era assim para o nosso personagem, cujo passado já vimos. Para ele, o centro – ainda que de sua cidade local – era lugar de luxo, onde, no mínimo, haveria uma praça iluminada e uma agência do Bradesco...

            Lembrando-se de que a soberba precede a queda, tratou de orar e pedir humildade e sabedoria. Mas ficava ainda a preocupação: e o que dizer a essa gente? Era um povo diferente, mais empinado, muitos tinham carro, tinham posses! Como dirigir-se a eles com o seu vocabulário simples? Bom, isso ficaria pra Deus resolver. Esse convite não haveria de deixá-lo fora de si. E foi pedir ao Senhor uma palavra vinda da parte dele.

            Ocorre que do outro lado, isto é, na igreja que estava para realizar a programação, manifestavam-se pequenas facções, visíveis somente àqueles que têm acesso aos bastidores. O líder da mocidade e o pastor presidente não pareciam falar a mesma língua, especialmente quando a questão se referia a programações. Para tristeza do Espírito Santo, os itens da lista “longe de vós” pareciam bem próximos, palpáveis...

            As três semanas se passaram e chegou o dia da pregação, momento tão esperado pelo nosso humilde pastor. Ele havia se preparado, inclusive com jejuns, orações e muito estudo, o máximo que pudera fazer. Deus havia lhe dado uma palavra, e ele estava feliz! Só não se sentia mais alegre porque a esposa ficaria em casa. Pegara uma gripe e sentia-se ainda debilitada. Saiu de casa confiante, acompanhado da filha de nove anos, após ter orado pela mulher. Usava um terno simples, mas caprichado - a camisa, a calça e até o paletó bem passadinhos. Fazia calor, aquele calor que só quem vive ou já viveu no Estado do Rio de Janeiro sabe identificar. Usar terno em tais circunstâncias chegava a parecer pecado contra o corpo. Aliás, era horário de verão, então o sol estava claro ainda às seis da tarde. O culto da noite começaria às oito, mas era melhor não se atrasar, chegar com uma certa antecedência. De mais a mais, o ônibus poderia demorar a vir...

            Quando o pastor e sua filha colocaram os pés no imponente prédio da igreja, um diácono lhe perguntou, com olhar interrogativo:

-          Pois não...?

-          É... – respondeu o pastor meio desconcertado. – Eu gostaria de falar com o pastor da igreja.

-          Pois não. – disse novamente o diácono. – O senhor pode aguardar ali. Ele não chegou ainda.

O lugar indicado era o último banco do salão de culto. O diácono explicara que não poderia deixá-lo na sala de espera porque estava trancada. Eram seis e vinte. Deu seis e meia, seis e quarenta, sete horas, sete e meia... nada.

Às sete e quarenta e cinco, o salão começou a receber as pessoas. Crianças e adolescentes vindos das uniões de treinamento, jovens, casais e visitantes iam aos poucos enchendo o espaço. Dentro de quinze minutos o culto iria começar. Por ser o “culto dos jovens”, já se via ali na frente o instrumental peculiar às novas gerações – guitarra, bateria, teclado, baixo, percussão e outros badulaques. A coisa prometia. Ao fundo, alguém havia colocado um disco pra tocar com um arranjo considerado jovem de um hino que dizia “qual o adorno desta vida? / é o amor, é o amor...” Havia uma certa euforia no lugar.

-          Pai, cadê o homem que você queria falar com ele?

A pergunta da filha soou como uma facada. “Cadê o homem?” Nem ele sabia. Ficara esse tempo todo ali, sem que ninguém lhe oferecesse ao menos um copo d’água. Por estranho que parecesse, ninguém até então havia lhe dito uma palavra, e ele não tivera acesso ao pastor da igreja. O diácono que lhe dissera para esperar simplesmente desaparecera de cena. O que estaria acontecendo?

Começou o culto. E ele ali, no mesmo banco, que por sinal era o último.

O líder dos jovens apareceu e foi falar com ele. Constrangido, deixando escorrer gotas de suor da cabeça, encurvou-se para falar com o convidado. Explicou-lhe o ocorrido. É que o pastor presidente da igreja havia convidado um colega seu de seminário, um pregador de São Paulo. A falha era dele, do líder de mocidade, que tentara cancelar o convite, mas de fato houvera um mal entendido entre ele e o pastor presidente, e o tempo para comunicar não fora suficiente. Como o querido não tivesse telefone em casa, o líder dos jovens mandara um recado através de um adolescente, mas, pelo visto, não surtira efeito. Só restava pedir desculpas e dizer ao pastor que ficasse para o culto, que se sentisse em casa, que não fosse embora. No final da programação, haveria um lanche...

O culto rolou normalmente. Nenhuma menção foi feita ao pastor que havia sido convidado pelo líder dos jovens. Nenhum pedido de desculpas oficial, de púlpito, nada. Não o chamaram nem para uma oração. Sua presença passou sem ser notada. Nosso amigo também não se importou. Aos poucos ia dizendo a si mesmo que fora melhor assim. Afinal, a igreja era tão chique, comparada à sua pequena congregação. Deus sabe o que faz. E deixou-se ficar ali, ouvindo a guitarra e a bateria, o coral, os testemunhos, os elogios ao irmão Fulano e à irmã Beltrana (gente de expressão na igreja), a pregação, os avisos e os agradecimentos.

Encerradas as atividades, teve de dizer à filha que deveriam ser rápidos. Por ser dia festivo, a coisa havia se estendido um pouco além do horário, e só depois ele foi perceber que poderiam perder o último ônibus pra casa. Perderam. E sem saber, ficaram esperando um pouco mais pra ver se vinha o ônibus, e nada! Poderia vir o outro, que deixa um pouco mais longe, mas nem esse vinha. Da igreja local não recebera nem um aperto de mão, quanto mais uma carona! Com o passar do tempo, a rua já ia ficando deserta e escura. Mais de 40 minutos haviam passado, era um pouquinho mais de meia-noite. E ao pensar na mulher,  na filha, no calor, na sua congregação pequena e nessa história toda, teve vontade de chorar.

Foi quando surgiu na rua escura uma luz. Era um carro grande, bonito, irradiando luminosidade por todos os lados, a ponto de ofuscar a visão de qualquer um que olhasse pra ele. Parou em frente ao pastor e sua filha. Chamou-os pelo nome e disse: “Entrem. Vou  levar vocês  pra casa.”

Os dois entraram. Havia algo de familiar naquela pessoa que lhes passava confiança, muito embora não conseguissem identificar quem era. A voz era meiga e, ao mesmo tempo, firme. Fosse quem fosse guiava o carro muito bem. Este, por sua vez, não fazia barulho e parecia deslizar leve numa pista conhecidamente esburacada. A luz ao redor era intensa e quebrava as trevas do lado de fora. O estranho puxou conversa:

-          Você ia pregar esta noite, não ia?

-          Ia... – respondeu o pastor, imaginando como ele poderia saber.

-          Outra pessoa acabou pregando...

-          É...

-          Você conseguiu se sentir à vontade ali?

-          Pra falar a verdade, não...

-          É... – disse o motorista. – Eu também nunca consegui me sentir bem ali. Na verdade, não tenho acesso àquele lugar. Já tentei, mas não consigo ficar ali.

O motorista foi rápido. Em pouquíssimo tempo havia deixado os dois em casa. Antes de se despedir, olhou fixamente nos olhos do pastor e disse apenas uma frase: “Fique em paz.” Dito isto, sumiu nos ares, deixando a rua deserta.

Uma paz enorme invadiu o coração do pastor, que, em sua simplicidade, percebeu haver sido alvo da companhia de Jesus. Algo que ninguém, jamais poderia tirar dele. A certeza de que as honras deste mundo nada valem, quando se está diante dAquele que tem toda honra. A alegria incompartilhável de saber que, em algum momento, o céu interrompeu suas atividades para deixá-lo em casa. Em algum lugar na Baixada Fluminense.

 

Volta